TRISTES VIDAS – o lado sombrio do Mercado Central de Belo Horizonte


Quem entra no Mercado Central de Belo Horizonte depara-se com uma profusão de cores e aromas de vários tipos e procedências. A disposição labiríntica do espaço convida o visitante a se perder deliciosamente pelos corredores cheios de lojas e bancas de frutas, verduras, legumes, queijos, temperos, peças de artesanato, coisas de casa, artigos religiosos, ervas, flores, entre diversos outros produtos. Os bares também integram o conjunto e oferecem agradáveis horas de lazer aos que os frequentam. Tudo isso, como se sabe, torna esse mercado já octogenário passeio obrigatório para todos os que visitam a cidade.

Há, contudo, um lado sombrio em toda essa maravilha. Trata-se da área reservada à comercialização de animais vivos, como cães, gatos, patos, coelhos, galinhas e pássaros, entre outros. Todos presos em gaiolas imundas, expostos ao barulho incessante e estressante, sem espaço para se movimentar nem ar fresco para respirar. Muitos, por terem ido ainda filhotes para as lojas, nem sabem o que é a luz do sol. Vários, em função dos maus-tratos, contraem doenças. Enfim, são seres em estado de explícito sofrimento, convertidos em meros produtos de compra e venda, como se a vida fosse feita para isso.

Deixei de ir ao Mercado Central há um bom tempo por esse motivo. Não posso ter prazer num lugar que encerra um calabouço repleto de viventes em condições de penúria, onde a tristeza predomina. Os cães, por exemplo, têm os olhos aflitos e parecem implorar a compaixão das pessoas que se aproximam. Mas a compaixão dos que se deleitam diante dos bichos postos à venda parece sempre rarefeita. E a dos vendedores parece que sequer existe. Isso porque, na nossa sociedade, os animais não merecem o estatuto de indivíduos, mesmo com as sucessivas descobertas científicas dos últimos anos quanto à complexidade psíquica, sensitiva e mental dos bichos de várias espécies.

Tem havido movimentos de ativistas contra esse comércio cruel, bem como algumas iniciativas políticas (infelizmente, não efetivadas) para enfrentar o problema. Uma delas foi o Projeto de lei 559/09, de autoria da vereadora Maria Lúcia Scarpelli, contra a comercialização de animais no mercado, mas não aprovado pela Câmara Municipal. O que evidencia a falta de sensibilidade de muitos do poder público para a questão dos animais. Algo, aliás, que se vê não apenas em BH, mas em várias partes do Brasil.

Num país refém da ganância capitalista e do moralismo hipócrita, em que os próprios humanos são frequentes vítimas de uma marginalização perversa (mendigos são queimados vivos, índios são expulsos de forma truculenta de suas terras, homossexuais são agredidos e assassinados por mero preconceito e intolerância), é difícil esperar que alguma dignidade seja dispensada aos animais, os mais marginalizados entre todos os seres. Uma sociedade que não respeita sequer a vida humana não pode ser capaz de admitir que um animal possa ter uma vida digna de ser vivida.

Dia desses, ouvi falar da absurda venda, no Mercado Central, de gatos pretos para despachos de macumba. Fiquei estarrecida. Isso, se for verdade, só vem comprometer ainda mais a imagem de um dos mais importantes e interessantes pontos turísticos de BH.

http://sergyovitro.blogspot.com/2012/03/maria-esther-maciel-tristes-vidas.html

O texto foi publicado no Jornal “Estado de Minas” de 06/03/12. Envie seu comentário à autora: memaciel.em@gmail.com, opiniao.em@uai.com.br

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