De quem é a culpa?

por Tatiana S. R. Cunha a Domingo, 15 de Janeiro de 2012 às 23:36

Caso Dalva – O Demônio tem nome e endereço.

Hoje, depois de conversar com amigos melhor informados do que eu, finalmente pude escrever sobre esse assunto.
Corrupção? Culpa do governo. Mau governo? Culpa de quem vota. Eleitores sem qualquer visão mais ampla de cidadania? Culpa do… E por aí vai.
Esse tipo de questionamento raramente traz algo mais do que a revolta de internet: aquela que surge, urge, ruge e se cala.
Há sim de buscar de quem é a culpa mas também de quem é a responsabilidade. Somente essa reflexão vai ser capaz de mudar algo no cerne, na medula, onde tudo o que acontece se pulveriza.

Culpado é aquele que ciente da situação OU portador da malfadada cegueira voluntária entregou, de boa ou de má fé, por ignorância ou por disfunção mental, animais àquela senhora.

Responsável é aquele que tomou conhecimento da situação mas por qualquer razão se omitiu.
Há, neste caso, culpados que também são responsáveis. Guardem o discurso “você está generalizando” pois esclareço: NÃO ESTOU GENERALIZANDO.

Há protetores old school (que eu espero que sinceramente mostrem suas caras na delegacia e deponham, porque é a única coisa decente a fazer – não por si e por seu orgulhinho ferido de quem antes de procurar saber o que é CERTO, procura eximir-se de culpa) que continuavam SIM a mandar animais sem a decência de questionar como uma senhora podia dar conta de 300 animais novos a cada 20 dias. Há novos protetores que na ânsia de achar que basta tirar o bicho da rua não conhecem os antigos demônios e aprendem logo a não questionar tamanha ‘bondade’, aceitando de bom grado o fardo que não doerá neles mas sim naqueles inocentes que pagarão com a vida pela imprudência de quem deveria zelar por eles.

Há pessoas comuns que vivem o sonho de que há pessoas ‘do bem’ que ‘largaram tudo na vida para cuidar de animais’. Pessoas que acham que existem fortunas sem fim destinadas a resgatar, tratar e alimentar ad eternum animais sem dono. Que há lindos campos verdes e ensolarados para onde é possível mandar os animais que estão nas ruas. Que há pessoas de bom coração que atendem o telefone a qualquer horário com a maior disposição para dar um destino decente àquele animal que ELAS acharam na chuva. Pessoas que, por acreditar em papai noel, acreditaram (a cegueira voluntária à qual me refiro) que uma senhora bondosa e ‘rica’ tinha um ‘sítio’ onde viviam 300 gatos que eram bem alimentados.

Esses são os culpados.

Por outro lado, há os protetores old school (epa, já falei deles! Leia até o fim, isso não é um equívoco) que por ter alguma identificação com o perfil dessa senhora permitem que sua ação continue. Muitas vezes até mesmo acobertam ou dão suporte ao mandar animais, mandar recursos ou mesmo desmentir pontualmente rumores de que há algo de errado na história.
Há também os novos protetores (assim espero) que por não ter vivência além da ocasional preferem não acreditar nos rumores porque estes poderiam desfazer seu sonho perfeito de “ainda há gente boa no mundo”.
Há o poder público que é conivente. Há as leis que são frouxas. Há um descaso profundo da sociedade e sua falta da (fundamental) cultura de fiscalizar a si próprio e o mundo em que vive.

Esses são os responsáveis.
Porém, há aqueles que além de responsáveis são os agentes que podem (ou poderiam) ter dado a essa e tantas outras histórias parecidas (muitas delas ainda em curso) um final diferente.
Eu falo da nova geração de protetores sérios. São grupos formados por gente comum que tem um engajamento que não é ocasional; são grupos organizados de gente esclarecida e que faz um trabalho efetivo e decente na proteção animal.
Eu me encaixo nesse grupo, sem falsa modéstia. Sou somente um pequeno pedaço de uma organização que só cresce e que todos os dias prova que sim, é possível trabalhar com animais de rua e levar seriedade e equilíbrio a uma causa tão mal vista pelo seu extremismo (prefiro bicho do que gente), imparcialidade (humano é tudo maldito) e falta de visão de mundo.
Somos nós os principais responsáveis porque PODERÍAMOS TER AGIDO ANTES.


Antes de ouvir o “você não sabe do que está falando”, farei a muitos um favor e apontarei o dedo indicador a mim mesma.
Há cerca de dois meses eu soube desse caso. Não desses detalhes, mas eu fui advertida por um amigo na proteção animal de que havia uma senhora que recebia centenas de animais e não dava conta deles. Que ele não tinha recursos para isso, mas precisava que ONGs – que teoricamente tem mais recursos e visibilidade – se unissem e investigassem, pois ele já tinha esgotado suas ações.
Eu fiquei de checar. Disse que conversaria com outros amigos dessa geração à qual me referi, pois a denúncia era séria.
Chequei? Reuni-me com dirigentes de outras ONGs para discutir uma ação a esse respeito?
Não.
Eu sabia dos detalhes? Não. Sabia dos números? Não. Mas sim, eu soube – pouco antes de se tornar público – que o demônio tinha um nome.

Em nosso meio quantos casos como esse temos notícias diariamente? Muitos. O que fazemos com eles? Tomamos partido de poucos porque nosso contingente é minúsculo perto da horda de colecionadores, de desequilibrados e mesmo de pessoas mal intencionadas que vivem às custas de animais.

Antes de seguir, contarei uma história para ilustrar.

Durante 3 anos eu denunciei uma famosa e antiga colecionadora de animais que diz-se protetora. Reuni fotos, testemunhas, denunciei ao CCZ e à Vigilância Sanitária por mais de 3 vezes. Essa cidadã safou-se de todas porque no nosso país as costas quentes falam mais alto do que a decência e o bom senso.
No nosso país você só é errado se não tiver os amigos certos. Minhas denúncias foram acobertadas por gente que tem influência na política da proteção animal, por pessoas que deveriam preocupar-se não em ter apoiado o lado errado mas em mudar para o lado certo ao descobrir o equívoco que cometeram.
Esse episódio minou a minha fé em denúncias ao poder público. Foi com essa experiência que optei por focar a minha energia naquilo que eu realmente poderia mudar: a vida de todos os animais que cruzaram meu caminho, aqueles que eu – e mais tarde a ONG que dirijo – pudesse acolher com dignidade, respeito e atenção.
Isso é uma desculpa para não ter feito nada com relação ao caso da D. Dalva? NÃO. Isso é só uma explicação, mas nem mesmo ela muda o fato de que eu também me sinto responsável especialmente por aqueles cadáveres de gatos e cães encontrados na calçada daquele demônio.
Cada um daqueles rostos sem vida. Cada um daqueles corpos minúsculos e torcidos. Cada uma daquelas vidas tiradas, cada uma daquelas que eu prometi a mim mesma zelar. Cada uma das vidas pelas quais eu luto TODOS OS DIAS, COM TODAS AS FORÇAS, pra melhorar.
Cada um daqueles gatinhos que não saberão o sabor de ter uma casa, de ter amor.
Eu poderia SOZINHA ter impedido aquela atrocidade? Não.
Teria conseguido acabar com o ciclo doentio daquele demônio? Não.

Mas sozinha não posso melhorar a vida de todos os animais. Sozinha não posso garantir que todos tenham casa e sejam amados, e nem por isso deixo de fazer o que posso.

E é essa a explicação.
O impossível nunca foi desculpa para não fazer o que precisa ser feito.
Por essa razão eu abraço minha parcela de culpa nessa história, e convido aos amigos que fazem um trabalho sério e organizado que reflitam sobre isso.
Pode ser que os protetores-do-mundo-cor-de-rosa tenham desculpas que convençam a si próprios e ao mundo, mas nós não podemos ter.
Pode ser que os protetores BURROS quem reincidiram (errar uma vez é aceitável, mas a sequência não tem perdão) em mandar animais para a Dalva peguem a culpa QUE É DELES e jogue nos outros (ah não li, não sabia, ninguém me falou, não leio e-mails).
Pode ser que essa gente PORCA que somente empurra o problema de um lado pra outro deite suas cabeças de lua no travesseiro e durmam em paz depois de chorar ao ver as fotos dos animais que eles, indiretamente, mandaram e mandam para tantas Dalvas que ainda estão por aí.
Mas nós…
Nós não temos desculpas para nossa omissão a esse caso e a tantos outros.

Não temos desculpas para não ter investigado COM SERIEDADE esse demônio que notamos agir de maneira suspeita desde 2009.

Somos nós – e os que ainda estão por vir, espelhados nas ações diferenciais que NÓS promovemos – que podemos mudar isso.
Estamos abarrotados de animais e de responsabilidade que tomamos para nós mas que são da sociedade como um todo. Temos toneladas de preocupações, de bocas para alimentar e de conflitos para gerenciar, tudo em prol da causa que abraçamos.
Todos os dias desbaratamos e intervimos em casos de colecionismo, abusos e crueldade. Mesmo assim só isso não tem se mostrado suficiente.
Nos comprometemos a agir com transparência e decência, e fazemos isso. É hora, agora, de vestir nossas carapuças e assumir uma nova postura ante esse tipo de denúncia.

CHEGA de tolerar esse tipo de atitude. CHEGA de permitir, ainda que indiretamente, que esse ciclo se mantenha. CHEGA de lavar nossas mãos porque temos (e isso é GENUÍNO) todas as justificativas DO MUNDO para fazê-lo.

CHEGA.

Essa é a minha culpa: a culpa daquele que poderia ter feito algo, ainda que não fosse mudar nada, mas não fez (mesmo tendo razões para não fazer).

E a sua culpa, qual é a sua culpa?
Não precisa dizer para mim, nem verbalizar isso a ninguém. A resposta a essa pergunta é a nossa mudança de atitude. É a nossa unidade, é a nossa ação.
Essa é a resposta que eu espero ver da nova geração.
É nisso que eu acredito. Porque não posso mudar o que já está feito, mas posso mudar daqui por diante.
E é isso o que farei.


Tatiana Sales
Presidente da Confraria dos Miados e Latidos
Janeiro/2012.

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